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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Anvisa alerta para riscos de preenchedores fora das indicações; médico explica quando procedimento estético deve ser evitado



Referência em medicina estética no Brasil, o Dr. Octávio Guarçoni explica que a indicação deve considerar condições de saúde, características anatômicas, intervenções anteriores e os limites de cada técnica para garantir segurança e previsibilidade.

A busca por procedimentos estéticos se tornou cada vez mais comum, mas o interesse em realizar uma intervenção não significa que ela seja indicada para todos os pacientes. Em 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou o “Informe de Segurança GGMON nº 01/2026 – Riscos do uso de preenchedores dérmicos fora das indicações previstas nas Instruções de Uso”, alertando para complicações associadas à utilização desses produtos em regiões anatômicas ou volumes diferentes dos autorizados.

No documento, a Anvisa explica que preenchedores dérmicos, como ácido hialurônico, hidroxiapatita de cálcio, ácido poli-L-láctico e PMMA, possuem indicações específicas de uso e foram avaliados para determinadas condições. A aplicação fora dessas indicações pode aumentar a possibilidade de eventos adversos, entre eles oclusão vascular, alterações visuais, embolia pulmonar e outras complicações. A agência orienta que o profissional avalie as condições clínicas do paciente, siga as indicações aprovadas e informe previamente sobre riscos e possíveis complicações.

De acordo com o Dr. Octávio Guarçoni, referência em medicina estética no Brasil e à frente da Guarçoni Health Center, clínica com mais de 10 anos de atuação e referência em saúde integrada, essa lógica deve ser aplicada aos procedimentos estéticos de maneira geral. A avaliação médica precisa considerar não apenas a queixa apresentada pelo paciente, mas também anatomia, qualidade dos tecidos, histórico clínico, medicamentos em uso e intervenções realizadas anteriormente.

“Duas pessoas podem chegar ao consultório querendo exatamente o mesmo procedimento e terem indicações completamente diferentes. A anatomia, a qualidade da pele, a quantidade de tecido, o histórico de intervenções e as condições clínicas fazem parte da decisão. O procedimento só deve ser indicado depois que esses fatores forem avaliados em conjunto”, afirma.

O histórico de procedimentos anteriores merece atenção especial como os preenchimentos, cirurgias, cicatrizes, fibroses e alterações provocadas por aplicações anteriores podem modificar a anatomia da região e interferir na segurança de uma nova intervenção. Em situações nas quais o paciente não sabe informar qual produto foi utilizado ou passou por diversas aplicações na mesma área, a avaliação pode exigir ainda mais cautela. A Anvisa também recomenda que o paciente informe ao profissional sobre a utilização prévia de outros preenchedores para auxiliar no planejamento.

As expectativas em relação ao resultado também fazem parte da indicação. Uma técnica pode ser adequada do ponto de vista médico, mas não ser recomendada quando o resultado esperado pelo paciente não corresponde ao que pode ser alcançado. Nesses casos, a consulta deve servir para alinhar o que é possível modificar, quais são os limites da técnica e se o benefício esperado realmente justifica a intervenção.

“Uma parte importante da consulta é entender o que o paciente considera um resultado satisfatório. Às vezes, ele chega buscando uma mudança que aquela técnica não consegue proporcionar. Se eu sei antes do procedimento que o resultado esperado não é alcançável, realizar a intervenção pode gerar uma frustração previsível e levar o paciente a buscar novos procedimentos”, explica o especialista.

Além das características anatômicas e das expectativas, a avaliação deve identificar condições que possam aumentar os riscos ou exigir o adiamento da intervenção. Doenças preexistentes, uso de determinados medicamentos, infecções ou inflamações na região, alterações na pele e outras condições clínicas podem interferir na indicação. A popularização dos procedimentos também pode contribuir para a percepção de que determinadas intervenções são simples e podem ser repetidas sempre que o efeito diminui. No entanto, cada nova aplicação ou cirurgia acontece em um organismo que já pode ter passado por outras intervenções, o que pode modificar os tecidos e o planejamento de uma nova abordagem.

Nesse cenário, reconhecer que um procedimento não é indicado também faz parte da responsabilidade médica. A conduta pode ser realizar, adiar, escolher outra técnica ou não intervir, dependendo das condições encontradas na avaliação.

“O ‘não’ também é uma conduta médica. Se eu identifico que o risco é maior do que o benefício, que a anatomia não favorece aquela técnica ou que a expectativa não pode ser alcançada de maneira segura, não realizar o procedimento é a decisão mais responsável. A função do médico não é simplesmente atender a um pedido, mas proteger o paciente e indicar aquilo que realmente faz sentido para ele”, conclui.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Moraes tem de responder ao país: quando o poder de um ministro começa a ameaçar a própria confiança no Supremo


| Por:  Claudia Souza |

    

Há momentos em que uma democracia precisa olhar para suas próprias instituições e perguntar, sem medo e sem partidarismo: quem fiscaliza aqueles que fiscalizam todos os outros?

    O Brasil chega ao 7 de Setembro de 2026 mergulhado novamente em uma crise institucional que tem no ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), um de seus principais protagonistas. E o problema já não pode ser tratado simplesmente como uma disputa entre bolsonaristas e seus adversários.

    As novas revelações envolvendo Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, elevaram o nível da discussão. Mensagens recuperadas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro procurou o ministro para tratar do avanço de investigações contra o banco e chegou a perguntar sobre possíveis medidas da PF contra ele. Segundo as informações divulgadas, o banqueiro também teria solicitado que Moraes conversasse com autoridades como o diretor-geral da Polícia Federal e o procurador-geral da República.

    Mais grave ainda são as informações divulgadas nesta terça-feira sobre documentos relacionados a contratos milionários entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Reportagens apontam valores que chegam a mais de R$ 100 milhões e indicam que o próprio ministro teria participado de discussões relacionadas ao contrato. A defesa de Moraes sustenta que sua participação teria ocorrido para avaliar questões jurídicas e que não houve interferência em decisões judiciais. E é justamente por isso que o assunto precisa ser investigado.

    Não se trata de condenar Moraes antecipadamente e nem de transformar suspeitas em sentença. Trata-se de exigir aquilo que qualquer cidadão brasileiro deveria exigir de qualquer autoridade: transparência, investigação independente e explicações convincentes, e é exatamente nesse ponto que o editorial do Estadão ganha peso. O jornal defende que Moraes não reúne mais condições para permanecer no Supremo e cobra uma investigação sobre suas relações com Vorcaro.

    O problema não começou no Banco Master. A crise de confiança em torno de Alexandre de Moraes é anterior ao caso Master. Desde sua atuação no chamado inquérito das fake news, iniciado em 2019, decisões do ministro vêm provocando questionamentos sobre os limites da atuação do Supremo, especialmente quando o próprio Tribunal participa da investigação de ataques contra seus integrantes.    As críticas se concentraram em medidas como bloqueios de contas e perfis em redes sociais, determinações de remoção de conteúdo e decisões monocráticas com enorme impacto político.

    É verdade que o país enfrentava uma escalada de ataques contra instituições democráticas. Também é verdade que ameaças, violência política e tentativas de ruptura institucional não podem ser tratadas como liberdade de expressão, mas democracia não significa apenas impedir ataques à democracia.

    Democracia também significa impedir que a "defesa" da democracia seja utilizada como justificativa para concentrar poder demais nas mãos de poucas pessoas. Esse é o ponto que o Supremo precisa compreender. Os ataques de 8 de janeiro de 2023, por exemplo, foram gravíssimos e sem os devidos processos legais.

    A invasão e depredação das sedes dos Três Poderes foi um atentado contra o patrimônio público e contra as instituições brasileiras. Os responsáveis por violência, vandalismo, tentativa de ruptura institucional e outros crimes devem responder individualmente por seus atos e isso não está em discussão.

    O problema começa quando a necessária punição aos responsáveis passa a ser confundida com a possibilidade de tratar todos os envolvidos como integrantes de uma mesma organização criminosa, independentemente do grau de participação de cada indivíduo.

    O próprio debate dentro do STF mostra que existem divergências sobre a aplicação das penas. Em agosto, o plenário derrotou Moraes por 6 votos a 4 ao reconhecer que determinadas medidas cautelares podem ser consideradas para abatimento da pena. Posteriormente, Moraes retirou da pauta processos semelhantes.

    Esse episódio é revelador, porque demonstra que não existe uma única interpretação possível nem mesmo dentro do Supremo. E, quando ministros divergem, a sociedade tem o direito de questionar decisões anteriores, pedir revisão de procedimentos e exigir proporcionalidade.

    O combate ao extremismo não pode criar uma espécie de salvo-conduto para o excesso estatal. O STF precisa aceitar que também pode ser criticado. Existe uma ideia perigosa crescendo no debate público brasileiro: a de que criticar o Supremo seria automaticamente atacar a democracia e NÃO É.

    Uma democracia saudável precisa permitir críticas ao presidente da República, ao Congresso Nacional, ao Ministério Público, à Polícia Federal e também ao Supremo Tribunal Federal. Aliás, um artigo publicado recentemente na Folha defendeu justamente que as críticas ao STF não podem ser desqualificadas simplesmente por causa dos ataques de 8 de Janeiro e que a Corte precisa aceitar críticas qualificadas para recuperar legitimidade institucional. O Supremo não está acima da Constituição e seus ministros também não estão acima da lei. O poder de interpretar a Constituição não significa poder ilimitado para decidir tudo, investigar tudo, determinar tudo e, ao mesmo tempo, definir os limites da própria fiscalização.

    Outro ponto que precisa ser enfrentado é o comportamento dos próprios ministros, colegas de Moraes do Supremo.

   Uma Corte constitucional não pode funcionar como uma corporação fechada em que questionamentos sobre seus integrantes sejam automaticamente tratados como ataques institucionais e o caso envolvendo Dias Toffoli já mostrou o tamanho do problema.

    O ministro deixou a relatoria do caso Banco Master depois que vieram a público informações sobre sua relação com pessoas ligadas ao caso. Antes disso, o Supremo havia manifestado apoio ao ministro diante das alegações de suspeição.

    A mensagem que fica para a sociedade é desconfortável: quem julga os ministros do Supremo quando existem dúvidas sobre a conduta de um ministro do Supremo?

    Essa pergunta não pode ser respondida simplesmente com a frase "confie no Supremo".

    Instituições democráticas não vivem de confiança cega. Vivem de mecanismos de controle.

    Moraes transformou-se no centro da crise?

    A ironia é que Alexandre de Moraes, que ganhou enorme protagonismo na defesa das instituições depois de 8 de Janeiro, acabou se transformando também em um dos principais símbolos da insatisfação de parcela significativa da população com o Poder Judiciário e isso não acontece por acaso.

  A concentração de decisões politicamente sensíveis nas mãos de um único ministro gera inevitavelmente resistência. E quando surgem novas denúncias envolvendo relações pessoais, contratos milionários e possíveis contatos com pessoas sob investigação, a obrigação de explicar aumenta proporcionalmente.

    O silêncio, nesse cenário, não ajuda. A resposta correta não é acusar todos os críticos de golpistas. É abrir as informações. É permitir investigação. É esclarecer documentos. É demonstrar, de maneira objetiva, que não houve conflito de interesses, favorecimento ou interferência indevida.

    Alexandre de Moraes deixou de ser apenas um ministro do Supremo. Ele se tornou personagem central da disputa eleitoral de 2026. E esse é um dos maiores riscos para a própria Corte.

    Quanto mais um ministro passa a ser identificado como protagonista de uma disputa política, maior é a necessidade de preservar distância, transparência e institucionalidade, caso contrário, cada decisão judicial será interpretada por um lado como justiça e pelo outro como perseguição, e uma Suprema Corte não pode depender da preferência política de quem está olhando para ela.

    O "caldo" está engrossando e é impossível afirmar antecipadamente qual será o tamanho das manifestações de 7 de Setembro. Também seria irresponsável afirmar que novas revelações necessariamente produzirão grandes mobilizações, mas existe uma combinação explosiva: insatisfação política, eleições presidenciais, discussão sobre anistia, condenações relacionadas ao 8 de Janeiro, críticas ao STF e agora novas denúncias envolvendo relações entre um ministro e um empresário investigado. Esse conjunto de fatores pode aumentar a temperatura das ruas e o perigo é que a indignação legítima seja capturada por discursos extremistas, mas existe um perigo igualmente grave no sentido contrário: que qualquer manifestação de insatisfação popular seja automaticamente classificada como ameaça à democracia.

    As duas coisas podem acontecer simultaneamente: é possível defender a democracia e criticar duramente o Supremo. Aliás, essa deveria ser uma das maiores demonstrações de maturidade política do Brasil.

    O Supremo precisa fazer uma escolha e Alexandre de Moraes tem uma escolha política e institucional diante de si. Pode continuar tratando as críticas como parte de uma campanha de deslegitimação do STF ou pode compreender que, diante da dimensão das acusações, a melhor defesa é a transparência absoluta.

    Se não existe conflito de interesses, que as investigações demonstrem isso.

    Se não houve interferência, que os documentos comprovem.

    Se os contratos são regulares, que sejam examinados.

    Se os contatos com Vorcaro tiveram natureza legítima, que sejam esclarecidos.

   E se houver qualquer indício de irregularidade, que seja investigado por uma autoridade independente.

    O mesmo vale para os demais ministros! O Supremo precisa entender que preservar a instituição não significa proteger individualmente seus integrantes de questionamentos. Às vezes, preservar a instituição significa justamente permitir que um de seus membros seja investigado.

    Não basta defender a democracia: é preciso praticá-la

    O Brasil não precisa escolher entre Bolsonaro e Lula para decidir se quer instituições fortes.

    Não precisa escolher entre esquerda e direita para decidir se quer liberdade de expressão.

    E não precisa escolher entre defender o STF e criticar Alexandre de Moraes.

    A verdadeira defesa da democracia está justamente em exigir limites para todos.

    Os responsáveis pelos crimes de 8 de Janeiro devem responder.

    Os responsáveis por eventuais abusos também precisam responder.

    Se houve tentativa de golpe, que seja investigada e punida nos limites da lei.

    Se houve abuso de autoridade, que também seja investigado.

    Se houve interferência indevida, que seja esclarecida.

    Se não houve nada disso, que os fatos sejam apresentados de forma transparente para que a sociedade possa formar sua própria opinião.

    O Brasil não precisa de salvadores. Precisa de instituições e as instituições verdadeiramente fortes não têm medo de fiscalização.

    Alexandre de Moraes poderia até ter sido um dos principais símbolos da resistência institucional brasileira nos momentos mais delicados do pós-8 de Janeiro. Mas justamente por isso deveria compreender que nenhum símbolo da democracia pode se transformar em símbolo do poder sem limites.

    O 7 de Setembro será, nesse sentido, mais do que uma data cívica. Poderá ser um termômetro da temperatura política brasileira e se as novas revelações forem confirmadas ou produzirem novas evidências, o problema deixará de ser apenas Alexandre de Moraes e passará a ser uma pergunta muito maior: até onde o Brasil está disposto a aceitar a concentração de poder em qualquer instituição — inclusive naquela que deveria ser a última barreira contra os abusos do próprio Estado?

    A resposta não deveria vir das ruas e sim das instituições.

    Mas, quando as instituições deixam de responder às perguntas da sociedade, é inevitável que as ruas comecem a perguntar mais alto.