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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Professor explica o porquê do Dia de Finados

Uma tradição que vem da Idade Média
Professor explica o porquê do Dia de Finados
Pelo menos em um dia do ano, a maioria das pessoas deixa de lado as preocupações do dia-a-dia para lembrar de pessoas queridas que já se foram. É o Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, que normalmente remete o ser humano a um momento de reflexão. Mas quando surgiu o Dia de Finados? Como as pessoas trabalham a realidade da morte? Essas e outras perguntas são respondidas pelo psicólogo e professor de Teologia da ULBRA, Thomas Heimann. Leia a entrevista abaixo:

ACS/ULBRA - Porque e como surgiu o dia 2 de novembro como data de homenagem aos que já faleceram?
Thomas Heimann - A Igreja Cristã, desde seu princípio, passou a elaborar um calendário litúrgico, no qual estabelecia datas para lembrar acontecimentos, festas e marcar personagens bíblicos importantes. Na Idade Média, por volta do séc XII, mártires e outras pessoas de vida exemplar também começaram a ser lembrados pela Igreja Católica. Esta recordação geralmente se ligava ao dia da sua morte. Como o número de santos aumentava significativamente, foi instituído, na Idade Média, o Dia de Todos os Santos (1º de novembro). Pouco tempo depois, foi também fixado o Dia de Finados (“Dia de todos os mortos”), celebrado no dia 2 de novembro. Finados, portanto, foi criado para lembrar todos os cristãos comuns falecidos, sendo um momento de reverenciar os entes queridos que já morreram.

ACS/Imprensa - Como foi tratado esse dia ao longo dos tempos?
Thomas - Posteriormente, após a Reforma Protestante, em todas as Igrejas Reformadas, foi extinto o culto aos santos, porém o costume de homenagear e visitar o túmulo dos falecidos já fazia parte da tradição cristã. Há, porém, algumas diferenças importantes nos ritos realizados em Finados. Católicos continuam a rezar pelos mortos e acender velas em favor das almas dos mesmos. Já para os protestantes a data serve apenas para lembrar com gratidão e carinho dos que partiram, bem como para proclamar a confiança no Deus da vida.

ACS/ULBRA - O dia de finados é exclusividade das religiões cristãs?
Thomas - A reverência aos mortos é prática comum em diversas culturas, desde os tempos mais remotos da humanidade. O que muda, nas diferentes religiões e culturas, é o simbolismo e o significado de cada rito e cerimônia. Em algumas regiões da África e especialmente na cultura oriental, a veneração aos mortos tem grande importância. Em algumas correntes budistas, o dia dos mortos é chamado de Bon Odori, dia no qual há procissões, músicas e desfiles de máscaras. No Xintoísmo japonês o culto aos kamis, espírito dos mortos, é realizado com oferendas de alimentos e objetos de agrado dos falecidos. De modo geral, os ritos, festas e cerimônias que lembram os mortos têm uma múltipla função terapêutica: podem servir como um resgate simbólico dos falecidos, têm uma dimensão comunial (mobiliza a comunidade) e também inscrevem a dimensão da esperança na sobrevivência da vida.

ACS/ULBRA - Antigamente, as pessoas ficavam dias ou meses de luto em homenagem à memória de um familiar. Hoje, essa reverência ocorre, na maioria dos casos, apenas no sepultamento e no dia de finados. Porque?
Thomas - Pode haver várias razões. Vou me centrar apenas numa. A morte parece ter se tornado um tabu em nosso neurótico mundo moderno. Falar de morte é visto como uma atitude mórbida, incômoda, portanto tudo que a lembre precisa ser escondido ou reprimido. Phillippe Ariès, um dos mais eminentes estudiosos do tema morte, define isto como a morte invertida, isto é, a morte que se torna algo vergonhoso, um interdito social, tal como o sexo foi na era Vitoriana. Ou seja, se antigamente falar de sexo era obsceno e constrangedor, hoje tornou-se obsceno falar de morte.

ACS/ULBRA – Mas porquê?
Thomas – Porque, para muitos a morte é, na realidade, a grande fonte da angústia humana, o medo mais primitivo da humanidade. De forma equivocada, o ser humano prefere não dar vez e voz a esta angústia, tornando-se, paradoxalmente, cada vez mais refém da mesma. Estudos apontam que, quanto mais as pessoas tentam afastar a realidade da morte de si, negando-se a falar dela, mais a morte acaba tendo poder sobre elas. É curioso, mas falar da morte com maior naturalidade, olhando de frente para ela, talvez seja o meio mais eficaz para superar a nossa angústia. Finados tem seu mérito por isso. Nos lembra de nossa finitude e de como devemos viver melhor a nossa vida.

ACS/ULBRA - Na maioria das vezes, vemos as pessoas lembrando da memória de seus entes com saudade e tristeza. Não deveria ser o contrário? Lembrar que o familiar ou amigo aproveitou sua existência terrena?
Thomas - A experiência da morte e luto sempre será única e singular para cada indivíduo. Como cada um vai lidar com a perda de um ente querido dependerá de inúmeros fatores: forma da morte (trágica, súbita, após longa doença...) tipo de relação que havia entre o falecido e o enlutado (dependência, conflito, culpa,...), idade do falecido (criança, jovem ou idoso), entre outras variáveis. Por tudo isso a morte pode despertar um turbilhão de sentimentos, por vezes contraditórios: de um lado, podem brotar sentimentos como tristeza, angústia, aflição, saudade, culpa, ira, entre outros. De outro lado, podem brotar sentimentos de alívio, serenidade, confiança e esperança. É preciso que não nos coloquemos numa posição de julgamento, mas aprendamos a compreender a diversidade de sentimentos que a perda e morte evocam nas pessoas.

ACS/ULBRA - Qual a grande mensagem de Finados?
Thomas - Além de enfatizar que a morte não é o fim para aquele que tem fé em Deus, gosto de uma frase de Rubem Alves que diz: “Que sabedoria nos ensina a morte? É simples. Ela só diz duas coisas. O Tempus fugit, o tempo que passa e não há forma de segurá-lo. E logo a seguir, conclui: Carpe diem, colhe o dia como quem colhe um fruto delicioso, pois esse fruto é dádiva de Deus”.

Fonte: http://www.ulbra.com.br/


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